No aconchego da cozinha...

Minhas melhores e piores lembranças estão relacionadas com alguma cozinha. Posso dizer, com certeza, que algumas das situações mais memoráveis da minha vida começaram ou terminaram nesse ambiente.

Foi na cozinha que comemorei muitos aniversários, reuni grandes amigos, compartilhei piadas incríveis, ouvi histórias cabeludas e confissões inusitadas, presenciei brigas e choros (briguei e chorei também), aprendi minhas primeiras lições de culinária, quase sem querer, com minha avó Maria, alimentei minha primeira gatinha, a quase imortal Mimi; enfim, nesse ambiente (da minha casa ou de outras) ocorreram fatos importantes da minha vida.

Se eu pudesse usar o trocadilho, na minha vida tudo acaba (ou começa) na cozinha!

E descobri que gosto realmente de cozinhar. Adoro testar pratos (típicos ou bem extravagantes), criar novos sabores, ver a química e transformação dos alimentos. Também adoro receber amigos em casa; definitivamente, a melhor forma de receber alguém é com um saboroso prato.

O anfitrião não nutre somente o corpo dos visitantes, mas também suas almas, e é nesse momento que surge a cozinha. E olha, como diria a Dorothy de O Mágico de Oz: “não existe cozinha como a nossa”.

As cozinhas de hoje em dia...

A cozinha passou de cômodo fumacento e engordurado, 'senzala' das donas de casa tão perseguidas pelas feministas, à tendência e sinônimo de sofisticação. As chamadas 'cozinhas gourmets', cheias de utensílios inn e equipamentos importados, viraram verdadeira febre.

Nada contra investir ou dar muito valor à cozinha. Eu mesma, quando visitava os apartamentos decorados com o Fá, fazia questão de estudar minuciosamente o espaço destinado à cozinha e não foram poucos os projetos descartados por não ser possível realizar meu sonho de ter uma cozinha americana (o restante dos projetos dispensados foram por conta ou do preço absurdo ou pela ausência de churrasqueira, item obrigatório para ele). Sem falar que os utensílios importados são realmente muito bons - e muito mais baratos que os nacionais, se comprados lá fora. Facas de cerâmica, panelas de qualidade, eletrodomésticos Kitchen Aid, utensílios Le Creuset... Se deixarem, gasto tudo o que tenho e o que não tenho nessas coisas...

E mais, cozinhar virou estilo de vida, virou moda. Mas moda chique, né? Porque ser uma pessoal 'normal' e gostar de cozinhar nem sempre é tão bem visto assim... Afinal, nunca ouvi tanto nome de chef na mídia. Tornei-me fã do Olivier Anquier: uma vez li uma entrevista dada por ele muito autêntica, ele não se (auto)intitula chef, ele é um amante da cozinha.

A verdade é que cozinhar e receber, estendendo a festa para além da hora de servir, é muito bom. E, nesses tempos que viver em São Paulo está quase mais caro que viver em qualquer outra parte do mundo, é ótimo poder reunir os amigos, fazer coisas simples e divertidas.
Eu queria poder reunir meus amigos periodicamente para encontros gastronômicos - não posso negar que, ainda que ligeiramente, há também por um motivo exibicionista de expor meu talento na cozinha (se é que posso chamar assim). O problema é que as pessoas vivem em pontos diferentes da cidade e possuem muitos e muitos compromissos...

Um pouco de história
Aqui acho que cabe uma pequena lição de história: para quem acha que Portugal não nos serviu de grande coisa, a 'arte de receber' foi um conceito trazido para o Brasil em 1808. Com a chegada da Família Real, gradativamente e principalmente em núcleos urbanos mais desenvolvidos, a “sala de viver” deslocou-se do setor de serviço agregando-se à sala principal, separando-se da área de preparo dos alimentos (ainda inteiramente operada pelas escravas).
A “copa” (ou "sala de almoço") era a antiga "sala de viver” dos tempos coloniais, considerada uma região feminina, guarnecida por uma vasta cozinha. Era um ponto onde a família se reunia para reuniões informais, permitindo-se certas liberdades domésticas e com poucas formalidades.
Na virada do século, a copa, abolida nas casas de classe média, foi transformada em 'salas de jantar' só encontradas em palacetes. Ou seja, em casas mais ricas existia a sala de almoço, enquanto que em casas mais modestas só havia a cozinha mesmo.

Se olharmos para um passado mais distante ainda, perceberemos como os valores culturais variam com o tempo. Na antiguidade, a cozinha era considerada um local sagrado, justamente por ser um local onde as pessoas reuniam-se e praticavam o ato de se alimentar.


Superstições (por que não?)


Para o feng shui, a cozinha está diretamente ligada à fartura e a prosperidade da família. Se você é adepto a essa corrente de pensamento, vale conferir as dicas:

  • Tape e esconda ralos e canos, isso porque se expostos eles simbolizam prosperidade escoando para fora

  • O fogão deve funcionar perfeitamente, pois representa a prosperidade da família, e ele deve estar com sua frente voltada para o centro da casa, pois isso representa a posição da saúde

  • Colocar um pedaço de espelho atrás do fogão, na altura da chama atrai fartura

  • O fogão e a geladeira devem estar distantes, pois são energias opostas

  • O ideal é ter duas cubas para serem realizadas tarefas com energias opostas: uma serve para preparar os alimentos e a outra para lavar a louça

  • O lixo produzido pela cozinha deve estar sempre do lado de fora da casa

  • As imagens ou telas na cozinha devem retratar situações de vida e movimento e de preferência bem humoradas e alegres

  • Espelhos na parede multiplicam a fartura da casa

  • É importante manter a despensa limpa e organizada, com os mantimentos necessários, ou seja, sem exageros. O estoque também não deve ficar muito tempo sem movimento, pois gera o acúmulo de energia estagnada

  • A mesa onde são servidas as refeições não deve estar de frente para uma parede e deve ser sempre convidativa, para isso, tenha sempre na mesa arranjos com flores vermelhas ou fruteiras cheias de frutas frescas

Afinal, atualmente, a cozinha é um local de destaque e, para a grande maioria (eu também), é o coração da casa. É o local onde as pessoas se unem para cozinhar, tomar um vinho, um café (ummm, expresso) ou simplesmente jogar conversa fora.


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